Navegar sem terra firme à vista

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Convido-vos a escutarem a música “Terra” do Caetano Veloso enquanto exploram este texto. Basta seguirem este link. Disfrutem!

Vivemos num mundo extremamente complexo, incerto e interdependente à escala global. Estamos a passar por uma cascata de crises reais e o ritmo de mudança continua a aumentar. Os exemplos incluem alterações climáticas causadas pelos humanos, acidificação dos oceanos, guerras por recursos como a água ou o petróleo, a degradação dos ecossistemas, migrações massivas, a ascensão do fascismo, estados nação falhados, desigualdade massiva na distribuição da riqueza, pobreza global, e as influências corruptas do dinheiro na política, para nomear apenas algumas. Com um crescimento explosivo da população, o aumento da procura, o esgotamento da oferta, e um imperativo político-económico para realizar lucros para uns poucos à custa do trabalho de muitos, estamos num caminho para além dos limites planetários em direção ao colapso.

Isto significa o fim de tudo o que valorizamos para nós próprios, as nossas comunidades e todas as gerações futuras.

Precisamos fazer melhor. Mas como?

A causa mais comum para a maioria destas crises está situada entre as nossas orelhas. Dentro da nossa cabeça. Deriva da forma como pensamos. Das crenças enraizadas que moldam a forma como agimos e respondemos na vida. Das histórias que nos contaram e que nós contamos constantemente a nós próprios e aos que nos rodeiam, inclusive às novas gerações.

Hoje, mais do que nunca, é tempo de estarmos completamente enraizados na realidade. Precisamos cultivar a capacidade de discernir o que está a acontecer à nossa volta – ver as verdadeiras ameaças e distingui-las das falsas. Isto é essencial para a nossa sobrevivência num ambiente cada vez mais complexo e mais acelerado. Num mundo onde nos sentimos cada vez mais enlouquecidos.

Talvez sabermos que estamos confusos seja um sinal de saúde mental. Talvez o crescente nível de sinais de depressão e esgotamento nas sociedades ocidentais seja um sintoma do motim do nosso espírito contra um sistema que nos asfixia e impede de sermos nós próprios, de sermos autênticos.

Na verdade, são aqueles que se agarram firmemente a verdades dogmáticas, que não estão a lidar bem com estes tempos turbulentos. Qualquer pessoa que não reconheça que o jogo está viciado, que as nossas escolhas políticas foram construídas para assegurar que o sistema corrupto não mude, caiu nos cuidados paliativos do fundamentalismo e perdeu a habilidade de pensar de forma crítica.

O Mundo está cheio de paradoxos. As contradições permeiam as nossas vidas. É possível ver mais do que um lado de uma estória e ainda assim, estarmos seguros da nossa ética e valores pessoais. Podemos reconhecer que o aquecimento global está a acontecer (e é causado por humanos) ao mesmo tempo que enchemos os depósitos dos nossos carros com gasolina para conduzir os filhos à escolar. Podemos ver que o sistema político está viciado e ainda assim participar nas eleições enquanto nos envolvemos em criticas mais profundas que serão necessárias para uma verdadeira revolução política. Podemos saber que parte das coisas que consumimos têm produtos químicos ou foram produzidas à custa da exploração de outras pessoas ou ecossistemas em partes distantes do mundo e ainda assim consumi-las. Os estados mentais alterados são apenas manifestações que a nossa saúde está a funcionar bem. Que está a dizer-nos que estamos numa fase terminal do sistema capitalista[1] e que é preciso mudar. A Economia está a comportar-se como um paciente com cancro[2]. Alguns indivíduos exploram o trabalho produtivo de muitos para alcançar ganhos pessoais. Alimentamos um sistema em que o crescimento económico perpétuo se torna o propósito principal para estes indivíduos gananciosos que são estruturalmente incapazes de ter o suficiente. Quando se tornaram milionários, infiltraram-se nos processos políticos para assegurarem ainda mais riqueza. Existe mesmo uma arquitetura global de extração da riqueza que tem criado pobreza e desigualdade por todo o lado. As maiores instituições da sociedade estão flageladas com a praga sistémica da corrupção. Podemos saber estas coisas e ainda assim estarmos muito confusos. Isto acontece simplesmente porque o mundo é extremamente complexo e é muito difícil saber o que fazer perante desafios desta magnitude. Acrescentemos a isto, cada vez mais desastres naturais, as chamadas crises de refugiados (muitas destas causadas por rupturas ambientais), colapsos políticos como Brexit no Reino Unido; e epidemias crónicas sociais como a criminalidade, a violência de género ou a depressão generalizada. Tudo isto faz com que seja mais difícil lidar com as complexidades da realidade. Ainda por cima, a propaganda nunca foi tão bem financiada e tão sofisticada.

Felizmente, milhões de pessoas estão a despertar à volta do mundo. Não precisamos mais sentirmo-nos sós por não nos identificarmos com as estórias oficiais com que nos alimentam os média corporativos. Temos que ser ativamente cépticos em relação às nossas suposições. Precisamos virar o olhar para nós próprios como parte do problema e lidar com a realidade, analisando as nossas crenças e percepções para percebermos se são adequadas para navegar o mundo à nossa volta. Temos que desenvolver a capacidade de sermos “antifrágeis” para beneficiarmos do caos e da incerteza do mundo moderno, como descreve Nassim Nicolas Taleb no seu livro “Antifragile – things that gain from disorder”.[3]

Os custos de bens básicos como a habitação e a alimentação continuam a aumentar enquanto os salários e as oportunidades de emprego encolhem à nossa volta. Os níveis de pobreza em Portugal, estão ao nível dos verificados antes do 25 de Abril, baseado em dados publicados recentemente.[4]

Estas coisas são reais. Podemos observá-las em diversas experiências vividas entre os nossos amigos e famílias. Elas são evidentes nos relatórios oriundos de universidades e centros de investigação espalhados por todos os continentes.

Os seres humanos são capazes de viver com mentiras e meias verdades. Somos animais que contam estórias, criando narrativas simples (fui ao centro comercial) e narrativas complexas (o mundo é composto por estados-nação que têm os interesses dos seus cidadãos no centro da sua intervenção). Algumas destas estórias são verdade pois mapeiam a realidade suficientemente bem para nos ajudar a resolver problemas no dia-a-dia. Outras são manipulativas por defeito, tendo sido desenhadas para nos confundir até à submissão, tais como a noção absurda que escolher entre dois candidatos numas eleições viciadas é supostamente uma forma de democracia.

Podemos estudar os média e observar como as estórias são criadas. E podemos aprender sobre a estória da propaganda e reconhecer os truques do negócio para gerirmos melhor as nossas percepções. O que não podemos fazer é assimilar informação sem filtros. Milhões são gastos para moldar os resultados de uma só eleição e muitos milhões mais são gastos pelos departamentos de marketing das grandes corporações. É necessária muita formação para discernir entre realidade e mito num mundo cheio de mentiras.

Fiquem confortados com o facto que não estão sós. Juntos podemos navegar as ameaças, procurando uma diversidade de perspectivas em assuntos importantes e escrutinando as idiossincrasias uns dos outros. Isto é feito em comunidade. Precisamos dialogar uns com os outros, na busca de entender o mundo e os sistemas em que operamos e juntos poderemos encontrar soluções sustentáveis. Eu acredito em nós. Podemos sentirmo-nos assolapados no isolamento mas juntos somos mais fortes do que pensamos. A Comunidade é o novo herói da Jornada Mitica do Héroi descrita por Joseph Campbell. [5]

Parte deste texto foi inspirada num artigo do Joe Brewer que podem ler aqui.

Notas:

[1] https://medium.com/@joe_brewer/the-mental-disease-of-late-stage-capitalism-4a7bb2a1411c#.v0yxfzpcb

[2] https://medium.com/@joe_brewer/capitalism-has-a-metaphor-its-a-cancer-768baf05c942#.v51ysyi30

[3] http://www.rodolfoaraujo.com.br/biblioteca/antifragile-nassim-nicholas-taleb/

[4] http://www.eapn.pt/documento/531/indicadores-sobre-pobreza-dados-europeus-e-nacionais

[5] http://www.thewritersjourney.com/hero’s_journey.htm

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